A gastronomia que aquece o corpo no inverno curitibano

Conheça aqui

Quando o termômetro na Rua XV de Novembro marca 8°C e aquela neblina fina — que o curitibano chama carinhosamente de “vina” do tempo, ou apenas neblina mesmo — começa a descer sobre as cúpulas do Jardim Botânico, a cidade muda de ritmo. O passo fica mais apressado, os casacos pesados saem do armário e, quase que por instinto, o estômago começa a ditar o roteiro. O inverno em Curitiba não é apenas uma estação; é um convite gastronômico que exige estratégia para ser bem aproveitado. Lembro de um grupo que acompanhei em julho passado. Eles vieram do Rio de Janeiro, acostumados com o sol, e desembarcaram no Afonso Pena sob um vento cortante. A primeira reação foi o choque térmico, mas a segunda foi o encantamento com o que a “geada” faz com o nosso apetite. O refúgio imediato foi Santa Felicidade. Entrar em um daqueles casarões de madeira ou alvenaria colonial, onde o fogão a lenha está sempre aceso, é como receber um abraço. Ali, a experiência vai muito além de um simples jantar. É o rodízio de polenta frita crocante por fora e cremosa por dentro, o frango a passarinho com bastante alho e a lasanha na manteiga que parece flutuar no prato. O vinho da colônia, servido em jarras, completa o cenário de uma Curitiba que preserva suas raízes italianas com um orgulho quase tátil. Mas o inverno paranaense tem uma dualidade interessante. Enquanto o planalto pede massas pesadas, a descida da Serra do Mar pela histórica ferrovia Paranaguá-Curitiba nos leva a um conforto térmico e sensorial diferente. O passeio de trem, que dura cerca de quatro horas, atravessa a maior reserva contínua de Mata Atlântica do país. Pela janela, vemos os picos cobertos por nuvens e as cachoeiras que parecem mais densas no frio. Ao chegar em Morretes, o ritual do Barreado é obrigatório. Não é só comida; é técnica. O preparo leva quase 24 horas em panela de barro vedada com cinzas e farinha, cozinhando a carne bovina até que ela se desfaça ao toque do garfo. A mágica acontece na mesa: a farinha de mandioca é misturada ao caldo fervente até criar uma consistência elástica, o famoso “ponto” que não cai do prato virado de cabeça para baixo. Acompanhado de banana-da-terra e um toque de cachaça de cana local, o Barreado é o combustível perfeito para quem enfrentou a umidade da serra.

Para quem fica na capital e prefere algo mais informal, as feiras de inverno nas praças Osório e Santos Andrade são o epicentro da resistência ao frio. É impossível passar por ali e ignorar o aroma do quentão — feito com vinho tinto, canela, cravo, gengibre e, em muitos casos, o toque paranaense do pinhão cozido dentro da caneca. O pinhão, aliás, é a nossa joia da estação. Seja assado na chapa, cozido na pressão ou servido como base para entreveros e doces, ele simboliza a resistência da araucária. Comer pinhão descascado na hora, ainda fumegando, enquanto se observa o movimento do Centro Histórico, é a definição mais pura de “ser curitibano” por um dia. Para aproveitar essa imersão sem os percalços logísticos que o clima impõe, como a dificuldade de estacionar perto dos restaurantes mais famosos ou o trânsito nos dias de chuva, contar com um suporte de receptivo faz toda a diferença. Ter um transfer privativo esperando na porta de um restaurante em Santa Felicidade ou garantindo o retorno confortável após a jornada de trem por Morretes e Antonina transforma o que seria um deslocamento gelado em uma extensão do conforto.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *